
Ilustração:
LUÍZA BASTOS
Por Olavo Romano
Escritor, membro da Academia Mineira de Letras
Muito cedo aprendi que “em festa de nhambu, jacu não entra”. Mas descobri, também, que “um gambá cheira o outro”. Bicho curioso, andei ciscando em terreiro alheio, pondo sentido em cantigas, toadas, entonações de outros bandos.
Trabalhando com educação, acabei me aproximando da psicologia e de psicólogos, entre os quais conservo fraternos amigos. Pelo garimpo da fala, do jeito e da alma do povo do interior, integrei o Grupo Mineiro da Simbólica Junguiana, embrião do Instituto Jung de Minas Gerais, do qual fui sócio fundador e primeiro vice-presidente. Tocando de ouvido, cheguei aos contos de fada, rico cabedal simbólico.
Em A sombra e o mal nos contos de fada, Marie Louise Von Franz relata o episódio de uma pequena compatriota que, como toda criança de sua idade, pelava de medo do lobo mau. O avô tranquilizou-a, garantindo que não havia mais lobo por ali, jurou que o perigoso animal se mudara para a Rússia.
No ano seguinte, a menininha, crescida e confiante, se paramentou para sua primeira colheita de morangos silvestres. Quando o avô a viu, toda fagueira, com avental e cestinha, orgulhou-se do que imaginava ser um ritual de passagem da neta. Ao se despedir dela, disse:
- Então, você vai colher morangos?
- Não, vovô, eu vou é ver o obo da ússia!
Na trajetória do herói, que todos cumprimos em busca do autoconhecimento e da individuação, o oponente está à espreita a cada passo. Quanto mais avançamos, mais poderoso ele fica, como a nos desafiar e estimular. Mesmo à entrada do derradeiro pórtico, o dragão – de dentro ou de fora – pode nos surpreender com seu bafo mortal. Não custa lembrar a lição da sabedoria popular, segundo a qual “assombração sabe para quem aparece”. Poderíamos dizer que assombrações “sombras são” e, assim, só aparecem à noite – a escuridão de fora jogando com a obscuridade interna. Basta a luz – do sol ou da consciência – para afugentar os medos.
Carlos Castaneda, pela voz de Dom Juan, ensina a agradecer aos nossos inimigos – entendidos como tudo o que nos desafia na caminhada humana – pelos recursos que nos fazem mobilizar na superação das dificuldades. Em Viagem a Ixtlan, aconselha seu discípulo a tomar a morte como conselheira. “Ela está sempre à sua esquerda, a menos de um metro”. O ensinamento é especialmente útil para os que, julgando-se eternos, adiam infinitamente seus projetos essenciais.
Os menos avisados poderiam pensar que, se o lobo mau “passeia aqui por perto”, deve estar de folga, ou, quem sabe, saciado. Mas, como diz o ditado, “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”. Otto Lara Resende diz que, de tão precavido, o mineiro do interior fala é “precautela”.
Seja como for, a história acaba bem, pelo menos na versão dos Grimm: os caçadores salvam a vovozinha, e Chapeuzinho canta, feliz: “Mas à tardinha, ao sol poente, junto à mamãezinha dormirei contente”.
Meu filho, na sua infância, criou uma versão em que a cantiga terminava assim: “... junto à mamãezinha dormirei – tá! – contente.” É que, de tanto manuseio, de tanto ser tocado, o disquinho ganhara vários arranhões. Um deles, exatamente o que ficava entre “dormirei” e “contente”, acabou incorporado à letra da cantiga.
Seria a inocência, que precede a consciência, segura proteção contra o perigo que afugenta o medo? O homem não seria o lobo do lobo, que reage para se defender? Como construir, então, um mundo em que o leão coma palha ao lado do cordeiro?


