
Ilustração: FABIANA BRUNA
Por Eliane Pellegrino - Psicóloga
Caminhando distraída, fim de tarde, e de repente, sem fazer qualquer esforço, o cheiro de jasmim devolve a minha infância. Bastou uma florzinha branca, intensamente perfumada, e já me transportei para a casa de minha avó, em cuja entrada floresciam dois pés de jasmim, carregados e inebriantes na primavera.
E como uma memória “puxa outra”, recupero também o sabor do biscoito frito no entardecer do sábado, a exigência meio ciumenta do Bolota, meu pequinês, e até o coração disparado no jogo de baralho que reunia a meninada – que medo de tirar o mico!
A esta magia chamamos memória olfativa, termo usado para definir as lembranças deflagradas instantaneamente por um cheiro. É uma espécie de viagem no tempo que o odor nos oferece. E é uma viagem individual, particular. Para uma pessoa um cheiro pode evocar memórias prazerosas, enquanto o mesmo perfume pode trazer lembranças dolorosas para outra pessoa.
A memória é o arquivo da nossa mente, depósito de toda a aprendizagem acumulada pela vida, e pode ser observada sob diversos ângulos. Temos memória olfativa, auditiva, visual, tátil, do paladar; temos aquela ligada a procedimentos (como nadar, andar de bicicleta, dirigir) e a memória semântica, que nos faz lembrar das capitais do Brasil, dos afluentes do Rio Amazonas ou dos números primos, mesmo depois de anos de distância do grupo escolar.
Muito poderosa também é a nossa memória episódica – que grava acontecimentos que ocorreram conosco, geralmente carregados de emoção: lembrança do nascimento de um filho, da formatura na Faculdade de Direito, do nosso casamento, de amigos que fizemos no colégio... Há memórias que duram muito – praticamente a vida inteira – e outras que se apagam quase como num piscar de olhos.
Quando se chega à maturidade, via de regra, começamos a nos preocupar com falhas de memória e seu significado. Serão sintomas de alguma doença grave? Será que ocorrem só comigo? São reversíveis? Está na hora de procurar um especialista? O que posso fazer?
O cérebro ainda esconde muitos mistérios. Uma das mais recentes e significativas descobertas da ciência refere-se à plasticidade cerebral, ou possibilidade do cérebro de se regenerar e produzir novos neurônios durante toda a vida.
Para isso tem receita: os médicos recomendam enfaticamente a busca de um estilo de vida saudável - exercícios físicos regulares, dieta equilibrada, controle da pressão arterial, boas noites de sono, combate ao stress, convívio familiar harmonioso, bons amigos e alegria de viver.
E especialmente importante: atividade mental intensa. Significa que devemos estimular constantemente o cérebro, treinando e desenvolvendo o raciocínio verbal, numérico, lógico, a percepção, atenção concentrada, observação, criatividade, o uso dos sentidos.
Está comprovado que a memória pode ser revigorada através de exercícios sistemáticos, e assim torna-se capaz de superar algumas dificuldades que o tempo pode provocar. A ciência recomenda – e acreditem – os resultados são muito satisfatórios.
E aí, será que precisamos de um nariz bem grande como o do lobo mau?
– Acho que é melhor ter uma memória de elefante...


