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É PRA TE COMER MELHOR

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Por Roberto Lúcio Vieira de Souza - Psiquiatra e Psicoterapêuta do Instituto “Renascimento” Diretor Clínico do Hospital Espírita André Luiz

matura_idade_ed02_nairza_santanaQuando fui convidado para falar de um tema tão desafiador e ao mesmo tempo fascinante, fiquei a pensar sobre o título escolhido e a necessidade de comentar um pouco sobre o mesmo.

Falando sobre a questão sexual é muito comum o uso do termo comer para substituir outros verbos; os quais embora mais afeitos ao ato da cópula, são evitados pela dificuldade usual das pessoas de falarem do tema, por ligá-los a algo sujo ou pecaminoso, em especial nesta sociedade ocidental.

O termo vinculado à ingestão de alimentos é inclusive inadequadamente utilizado, pois, como comentado por Rubens Alves em uma de suas crônicas, não é o homem quem come a sua parceira no ato sexual e sim o contrário. Na verdade, é a vagina a boca e não o pênis.

Provavelmente, uma das ligações mais íntimas de um e outro ato está na questão do prazer. Certamente, em nenhuma outra experiência física o homem consiga tanto prazer como no ato de se alimentar e de relacionar-se sexualmente.

Entretanto, esse prazer sexual é o maior desafio para a Humanidade em sua interrelação com o outro. De um lado, pela sua busca incessante e pela falsa idéia de que ele possa ser vivido por uma eternidade, e de outro, pelo temor de não poder satisfazer o prazer do companheiro, o que causa tantas decepções sexuais e afetivas.

Na maturidade da vida, essas questões ainda permeiam as mentes dos homens e mulheres, embora de maneira um pouco diferenciada. Certamente, já não habita a falsa esperança de um prazer eterno, depois de tantas vivências ao longo da vida demonstrando o contrário; entretanto, em nenhum outro momento o temor da impotência e da incapacidade de dar prazer está tão presente como nessa fase, até pelas questões orgânicas e por falta de informações: as pessoas não sabem o que podem ou não esperar e viver da sua sexualidade.

Esse temor encontra seu primeiro desafio na condição física, nos aspectos hormonais dessa fase da vida e nas premissas levantadas por nossa sociedade consumistas, onde os ideais de beleza, saúde e prazer estão amarrados à falsa idéia de uma juventude eterna e traços corporais simétricos. É preciso mudar este paradigma que permeia o mundo atual, fortalecendo nas pessoas a certeza de que em cada etapa da nossa caminhada evolutiva temos maneiras e necessidades diferenciadas para viver a sexualidade. Entender que as mudanças corporais e hormonais presentes não são sinais de doença, mas de transformação, cuja presença é convite para uma compreensão nova das experiências a serem vividas. Certificar-se de que acima da quantidade está a qualidade das vivenciações e que, em qualquer momento da vida, o que qualifica e intensifica o prazer sexual é o afeto dos parceiros e não a técnica ou número de relações sexuais.

O segundo problema está no silêncio que permeia grande parte dos casais, ligados oficial ou oficiosamente, por toda a jornada do relacionamento, no campo do sexo. Quando se pesquisa como anda o diálogo dos casais, em especial, sobre as suas sexualidades, a resposta é entristecedora. É comum não se falar coisa alguma sobre o assunto durante ou fora do ato; e quando se comenta, a maioria utiliza-se de expressões, embora afetuosas que banalizam o ato e desconfiguram o verdadeiro sentido da união sexual. Desde pequeninos, aprendemos os nomes dos órgãos sexuais por apelidos e somos chamados a não falar em público sobre o tema, como se estivéssemos praticando o maior sacrilégio.

E, finalmente, um outro aspecto e talvez o mais sério e real é a qualidade da experiência sexual durante a vida, em especial no seu aspecto afetivo. Não são raros os casais, mesmo jovens, que têm suas relações sexuais esparsadas, quando não existente até por meses e anos, os quais vivem relacionamentos de aparência, muitas vezes justificados pela manutenção da família por causa dos filhos.

As vivências no transcorrer dos anos demarcarão como o casal compartilhará os momentos vindouros, que facilitarão ou não os desafios naturais das mudanças orgânicas e, consequentemente, ensinarão a fazer as escolhas pelas questões do coração, que sustentam as almas, mesmo quando o físico não atender os anseios dos parceiros. Um aprendizado maravilhoso, no qual o prazer se realizará sempre na qualidade e, onde, mais do que o ato sexual, é o toque, na mais profunda acepção do afeto, aquilo que alimenta o ser e que prolonga o prazer, por alimentar o espírito.

Última atualização ( Dom, 21 de Março de 2010 01:43 )  

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