Por Dra. Karla Giacomin - Geriatra
A audição é um sentido que ultrapassa a capacidade de ouvir sons. Ela também é muito importante para o equilíbrio, para a sensação de bem-estar e para a integração entre as pessoas e o ambiente. Se ouvirmos bem, teremos mais chance de participar da vida e do mundo contemporâneo, de sentir que pertencemos a um grupo e de que nossa opinião faz diferença. A preocupação com a preservação da audição ao longo da vida tem aumentado, mas ainda é possível presenciar trabalhadores em atividades muito ruidosas sem usar a proteção auditiva, bem como pessoas que escutam música em volume muito além do aconselhável.
É possível suspeitar que uma pessoa não esteja ouvindo bem, quando ela:
• responde de forma inadequada ou com atraso ao que lhe é perguntado;
• isola-se de ambientes em que haja mais de uma fonte sonora funcionando simultaneamente;
• irrita-se em ambientes ruidosos;
• não escuta os sons do ambiente (telefone, interfone, campainha, torneira aberta, animais domésticos, entre outros);
• precisa aumentar o volume da televisão;
• tem dificuldade para discriminar os sons, especialmente os mais agudos;
• tende a falar e a participar menos durante uma reunião;
• cochila muito durante o dia.
Além de prejudicar a comunicação, a audição ruim também traz reflexos para a memória e para o humor da pessoa. Uma pessoa que não escuta bem tende a registrar menos os acontecimentos, recados e compromissos do dia-a-dia. Isso favorece o esquecimento, a sensação de não ser mais tão capaz como antes e/ou a dúvida de familiares e amigos acerca da confiabilidade das informações que ela relata. Tudo isso pode gerar muito estresse, desinteresse e baixa de autoestima, precipitando inclusive quadros depressivos ou mesmo agravando os processos porventura existentes de declínio da memória.
O prejuízo da audição também traz reflexos sobre o equilíbrio, aumentando o risco de quedas e de acidentes dentro de casa e até de atropelamentos por não perceber a aproximação de veículos, motocicletas e bicicletas ao atravessar as ruas. Além disso, a pessoa que escuta mal fica mais vulnerável à ação de pessoas inescrupulosas e mesmo de violência, como furtos e invasão de domicílio.
Por todas essas razões, toda suspeita de baixa de audição deve ser investigada e tratada adequadamente. Às vezes, trata-se apenas de uma rolha de cerúmen que pode ser retirada e melhorar sensivelmente a audição. Outras vezes, o dano auditivo é suficiente para prejudicar o convívio social e a pessoa é orientada a utilizar prótese auditiva, em um ou nos dois ouvidos. Tem havido muito progresso nas próteses auditivas em termos de conforto e discrição. Elas podem ser adquiridas em lojas especializadas ou na rede pública de saúde. Alguns aparelhos possuem uma função específica para o uso do telefone, o que permite que a pessoa escute melhor uma conversa telefônica.
Os familiares e amigos também devem ser orientados que para comunicar melhor com alguém que não está ouvindo bem: não é necessário gritar, mas falar em um tom firme e diante da face da pessoa. Também pode ser necessário reduzir os ruídos do ambiente, abaixando ou desligando aparelhos eletrodomésticos, como liquidificador, aspirador de pó, televisão, rádio ou outros durante a conversa.
O silêncio que se faz em torno de uma pessoa que escuta mal pode trazer danos irreparáveis à sua vida pessoal, profissional e familiar. Um erro frequente é acostumar-se a não valorizar o que ela tem a dizer, aumentando o ciclo de isolamento e de solidão. É possível reverter essa tendência, exercitando o respeito e fortalecendo o convívio na comunidade. Quando alguém se mostrar isolado e desinteressado, não nos custa provocar: “e você, o que pensa sobre isso?”. Afinal, estamos aqui para te ouvir melhor...


