Por Sheila Passos
Lya Luft é formada em letras anglo-germânicas, com mestrado em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada. Trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês.
Seu livro de maior repercussão chama-se Perdas e Ganhos. Assina a coluna “Ponto de Vista” da revista Veja.
Mãe de 3 filhos, sofreu a perda de dois maridos. Ela é um exemplo de determinação e de atitude madura perante a vida e suas dificuldades.
No fórum da longevidade, promovido pelo SESC-MG, em outubro deste ano, a escritora nos concedeu uma breve entrevista que reproduzimos na íntegra.
Um dos aspectos que mais nos chama atenção na sua literatura, é que a senhora nos incita a dar nomes aos sentimentos. Observamos que muitas pessoas, mesmo em idade madura, não aprendeu nem foi estimulado a nomear seus sentimentos. Qual o percurso a senhora nos orientaria para reconhecer esses sentimentos e nomeá-los?
Eu penso que nós temos uma tendência natural de ter medo da palavra. Usamos comumente as palavras para formar tabu. As palavras mexem mais com a gente do que a própria atitude, é algo muito interessante de se ver. Nós não somos acostumados desde crianças, em geral, a conversar, a argumentar. Mesmo os adolescentes, a escola não ensina a lidar com as palavras como uma propriedade nossa. No momento que você diz o nome das coisas, você de certa forma se apossa delas. Você tem um controle das coisas quando você dá nome. Há pessoas que lidam muito bem com a palavra ao natural, é o chão delas. Para outras, o chão são os números. Então, depende de muitas coisas, mas é um exercício de naturalidade. Nós somos muito pouco naturais. Falamos muito em natureza, em meio ambiente, mas a verdade é que, não só nós poluímos, mas estamos longe da nossa natureza. Nós escutamos pouco nosso instinto, lidamos mal com as coisas naturais porque somos cheios de teorias, muitas delas não valem nada. Teorias, receitas... Eu observei outro dia que jovens mães, pessoas com alguma formação intelectual, que vão à emergência do hospital pedir para a enfermeira cortar a unha do bebê. Hoje em dia as meninas fazem curso para aprender a amamentar. Pode ser até uma coisa bem útil, mas quando você pensa do ponto de vista da natureza do ser humano parece até uma aberração. As pessoas não sabem mais segurar seus bebês. Nós estamos muito cheios de teorias, muito angustiados. Isso se reflete também na lida com as palavras. Nós temos uma dificuldade natural com elas. As palavras são um território misterioso. Elas servem tanto para o maior bem quanto para o maior mau.
Muitas vezes a pessoa sente raiva e se recrimina ou é recriminada por isso. Aprendeu que sentir raiva é muito feio. Então a pessoa sente raiva e qual nome vai dar para isso que se sente?
Exatamente, é preciso dar o nome que a coisa tem. Mas então já foge da palavra, já entra no âmbito que nós temos pré-conceitos e conceitos tortos. Estou terminando de escrever um livro agora, que se chama, a princípio, Novos Enganos, em que eu falo sobre alguns dos mitos modernos. O homem antigo criava mitos, divindades, para abafar seus medos, explicar coisas que ele não compreendia. O homem moderno cria os mitos, que eu chamaria de enganos, por exemplo, o mito “da família feliz”. Então toda mãe tem que ser santa, todo pai tem que ser o provedor, todo o filho tem que ser... e a família tem que ser feliz. Quando, na realidade, não é assim. O não poder ter raiva é reflexo desse mito da família feliz que nos tira a naturalidade do viver e nos coloca a culpa. Nós vivemos a cultura do “ter de”. “Tenho de ser assim”, “tenho de frequentar esse lugar”, “tenho de possuir essas coisas”, “tenho de ser feliz”, “tenho de estar sempre alegre”. Você perde a mãe em um dia, no dia seguinte as pessoas dizem: “Reaja, não chora”. Nós vivemos uma vida muito artificial. É natural ter raiva, o que não significa ter ódio nem rancor. O ser humano é assim. Por isso que o ser humano é interessante, por isso que eu escrevo, os psiquiatras abrem consultórios e nós fazemos seminários.
Pensando na frase: “Levar esses doces para a vovozinha!“ Se colocarmos os doces como símbolo dos sentimentos, quais você levaria?
Alegria, carinho, apreço. Eu acho que alegria e carinho, são os principais. Uma vovó que mora sozinha no bosque iria gostar de mais o quê? Carinho dos netos e que as crianças se alegrem de estar com ela. Não ela se sentir alegria porque as crianças vieram, porque isso é natural, mas que as crianças levem a alegria de estar com ela, eu acho isso superimportante.
E para as avós sem netos? Essas avós hoje que estão alcançando a longevidade mas sem esse vínculo familiar.
Eu acho uma coisa complicada porque a família é muito importante. Agora, se por alguma razão não tem família, não casou, não teve filho, não teve netos... Se, por alguma razão, você não tem família, você sempre pode e deveria fundar uma família sucedânea que são os amigos, sobrinhos, sobrinhos-netos, os netinhos da vizinha, os netinhos da amiga. Você não está condicionado unicamente à família do sangue. Se você é uma pessoa afetiva, você vai fundar outra família, outras famílias, outras relações às vezes tão importantes ou até melhores que suas relações familiares. Mas isso se você é, ao natural, uma pessoa amorosa, porque tem pessoas que não são assim, que não curtem família, são mais frias e são pessoas que também têm direito de existir, mas não devem se queixar. Existem pessoas que preferem ficar sozinhas, que acham criança muito chato. Tem mulheres que não nasceram pra ser mães e não é que sejam más, é o tipo de afetividade que nem todo mundo tem. Mas eu acho que é isso, se você não tem netos, ou filhos de sangue, funde famílias, está cheio de gente precisando de afeto. Desde de que você também não seja uma velha chata, porque isso também é um coisa importante.
Para a senhora o que é atitude madura?
É algo muito amplo e difícil de definir o que é uma pessoa que tem atitude madura. O que para uma pessoa pode ser madura, para outra pode ser infantil. Maduro é aquilo que não é superficial, que não é fútil demais. Mas às vezes tem que ser fútil porque se não fica chato, circunspeta. Eu não acho que a pessoa com atitude madura tem que ser uma chata, pessoa sem graça, sem alegria de viver. Não perder tempo demais com infantilidades, depois da infância. Você tem centenas de tipos de atitudes maduras ou imaturas. Às vezes a mesma pessoa, para algumas coisas pode ser bastante madura e para outras ser bem infantil. Eu não saberia te dar uma definição. Mas você sabe quando a pessoa é mais madura ou menos madura. Em certos momentos todos nós somos imaturos, temos esse direito. Eu acho que a coisa fica mais complicada quando você perde o tempo e perde a vida sendo imaturo em horas que você poderia tomar um pouco as rédeas da sua vida em suas mãos e ter alguma postura. As coisas infantis em pessoas mais velhas as vezes são engraçadas, mas em geral ficam muito sem graça. Roupa, linguajar, gracinhas. Agora o que é maduro? Certamente não é o enfadonho, não é o sempre crítico, não é o lamuriento. Eu acho que o maduro tem muito a ver com alegria e com prazer.


