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ENTREVISTA COM RUBEM ALVES

 

Rubem não estava quando chegamos para a entrevista. A presença dele é tão forte em sua casa, que mesmo em sua ausência, podemos senti-lo. Em sua estante, abarrotada de livros, ouvimos o alvoroço dos autores que conversam animadamente. Adélia Prado e Cora Coralina recitam Minas e Goiás, trocam receitas e confidências sobre coisas de ser mulher. Cecília Meireles só olha e se diverte aos vê-las tão diferentes e tão iguais... Lya Luft e Thiago de Melo falam da morte de seus amores e amigos e conversam confidencialmente sobre as perdas e ganhos. Drummond, Fernando Pessoa e Neruda contam casos e facetas inesperadas da vida e proclamam por fim: Confesso que vivi! Willian Blake, Bocage e Nietzsche se comprazem diante da amizade reinante no mundo das letras e dos homens.

 

matura_idade_ed02_rubem_alvesVocê nasceu em 15 de setembro de 1932...
Rubem - Sim, mas eu não me lembro (risos). Eu nasci em Boa Esperança, mesma cidade do grande pianista Nelson Freire. Sobre lá, já escrevi muitas coisas contando como era minha vida de menino na roça. Por que na roça? Porque o meu pai foi um homem muito rico e ele era dono de “tudo”, isto antes deu nascer. Mas então veio a crise de 1929 e meu pai perdeu absolutamente tudo e foi morar em uma fazenda velha de pau-a-pique. Isso eu tenho memória. Era fogão de lenha, os ratos passeando pelas telhas, tinha o “guarda-comida”, um móvel utilizado para guardar as comidas, não tinha luz elétrica, não tinha rádio, não tinha televisão, não tinha nada. Era uma lamparina de querosene, me lembro do cheiro. Foi uma parte muito feliz da minha vida. Interessante estar na velhice porque é o tempo das memórias, nós nos lembramos das coisas acontecidas.

Qual era sua idade nessa época?
Isso foi quando eu tinha 4 anos. Mas nós não ficamos muito tempo na roça porque meu pai percebeu que ele não era vocacionado para “roçar” pasto. Ele não sabia fazer isso e descobriu que precisava arrumar um jeito de ganhar a vida e se tornou viajante, aquelas pessoas que vão de cidade em cidade, “fazendo a praça” e vendendo uma porção de objetos. Para que ele pudesse fazer isso preciso era que morássemos em uma cidade que possuía trêm de ferro. Foi ai que nós mudamos de Boa Esperança para Lambari, depois para Três Corações, depois para Varginha e finalmente para o Rio de Janeiro.

Como foi sua vida no Rio de Janeiro?

A minha vida no Rio de Janeiro foi muito sofrida porque eu era um menino com sotaque diferente e as outras crianças começaram a me caçoar, a não me convidar paras as festa e a me considerar esquisito. Então no Rio de Janeiro a experiência foi muito sofrida mas que de alguma maneira serviu para me endurecer.matura_idade_ed02_rubem_alves_livros_2

Quando foi que você se tornou Pastor?

Eu fui ser pastor na cidade de Lavras, tive experiências fantásticas. Mas quando eu fui ser pastor eu não acreditava em nada. Eu não acreditava em inferno. Não poderia admitir que um Deus de amor destinasse uma pessoa a eternidade no inferno. Eu já não acreditava nisso, não acreditava que deveria salvar os homens. Então a minha relação com a Igreja foi mais uma relação de ajudar as pessoas. Eu queria ajudar as pessoas, foi quando eu tive muita experiência com pessoas mais pobres. Neste segundo livro de memórias, “O sapo que queria ser príncipe”, eu conto muito a minha experiência com a pobreza, com a miséria. Então nós vamos ficando mais amolecidos vendo o sofrimento dos pobres.

Foi em Lavras que você constituiu família?

Casei, tive três filhos, eu e minha mulher Lídia. Na verdade em Lavras nasceram dois filhos, o Sérgio, que hoje é médico, e o Marcos, que é biólogo. Só quatorze anos depois, quando já morávamos em Campinas, São Paulo, é que nasceu a Raquel que em grande medida é responsável pelo meu caminho literário. Foi quando ela nasceu que eu comecei a lhe contar histórias e dava mais atenção a ela do que aos outros filhos, talvez porque eu já estivesse mais velho.

matura_idade_ed02_rubem_alves_livros_1Quanto anos você tinha?

Acho que uns 55. Foi então que eu comecei a escrever, contando e inventando histórias para Raquel.

Sua carreira como escritor começou nessa época?

Não, minha carreira começou com minha tese de doutoramento que é um livro de teologia sobre a vertente teológica chama Teologia da Libertação, uma teologia política. E este livro foi “best-seller” nos Estados Unidos, vendeu muito e fiquei famoso. Mas eu não era escritor, meu estilo era acadêmico, um estilo duro, não pode fazer literatura com estilo acadêmico. Mas ai chegou um momento que eu me cansei e disse: “Eu não quero escrever para os meus pares. Eu quero escrever para as pessoas comuns, para as crianças, os adolescentes.” Foi quando eu rompi com o estilo acadêmico e comecei a escrever “o que me dava na telha”. Para mim foi maravilhoso porque isso deu sentido à minha vida. Os livros foram aparecendo e isso me trouxe grande felicidade. Aos pouquinhos eu fui me tornando um pouco de escritor.

Quando foi que você se descobriu Educador?

Foi depois que eu me desliguei da igreja, percebi que eu tinha a ver com as crianças, com a educação. Me transformei em educador sem nunca ter feito curso de pedagogia, porque não é curso de pedagogia que faz um educador. O educador é algo que nasce dentro da gente. Como no Nelson Freire que se tornou um grande pianista, não porque ele quis ser pianista, mas porque ele tinha um piano dentro dele.matura_idade_ed02_rubem_alves_ratos

Nascer educador significa primeiro gostar das crianças e dos adolescentes. Gostar da experiência do contato, de ver o rosto das crianças, provocar a inteligência. Meu filósofo favorito, Nietzsche, dizia que a tarefa dele era “tornar as pessoas desconfortáveis”. Eu acho que essa é uma das tarefas do educador, provocar, fazer perguntas: “Como é isso? Como é aquilo?”. Fazer as crianças pensarem.

E qual foi seu primeiro emprego como educador?

Eu cheguei aqui no Brasil, depois do “exílio”, eu não tinha emprego. Eu tinha diploma de doutor, P.H.D., mas não tinha emprego. Então, por acidente, um amigo meu, que eu conhecera nos EUA, Paulo Singer, famoso economista, ele me “bate um telefone” e me diz: “Você aceitaria ser professor em uma faculdade do interior?” E eu disse: “Qualquer lugar”. E eu fui trabalhar no lugar de um professor de filosofia aqui na faculdade de Rio Claro e foi quando eu entrei no ambiente universitário. E o que mais me interessou foi a área de Educação.

O que nos encanta na sua literatura é a quantidade de citações que você faz de outros escritores, poetas, de filmes, de livros e esse compartilhar é uma coisa fantástica. Queria que você falasse um pouco sobre isso.

Uma vez um amigo meu, que vive na Suiça, brasileiro, me perguntou se eu tinha o arquivo com as citações. Então eu estou falando sobre avaliação e ai vou ao computador teclo “avaliação”, etc. Não é nada disso. Está tudo na cabeça. Você vai escrevendo e os outros autores vão entrando na conversa. Aquilo simplesmente aparece e combino com o que você está dizendo. A quantidade de e-mails que eu recebo de outras pessoas dizendo que ficaram sabendo dos outros autores através das coisas que eu escrevi. Muita gente ficou sabendo sobre Fernando Pessoa, muita gente ficou sabendo sobre Bachelard, muita gente ficou sabendo sobre Nietzsche. Ai vou provocando a curiosidade e as pessoas vão se interessando. Não é só falar o que eu estou pensando mas falar também o que os outros estão pensando, partilhar.

E este universo chamado metáfora?

Ah, As metáforas! Não tem jeito de procurar metáforas. É feito um trovão. O aforismo é um relâmpago que cai e você não esperava que fosse cair. E quando você usa metáfora a coisa fica mais clara. Em minhas palestras com professores, costumo dizer que a inteligência é igualzinho ao pênis. O pênis é um órgão excretor, deprimido, está sempre olhando pro chão, murcho e sem iniciativas próprias, mas se for provocado ele sofre transformações hidráulicas fantásticas e viram foguetes, soltam fogos de artifício, produz prazer e produz vida.

A inteligência, como o pênis, é deprimida, não quer nada, não faz nada, mas ser for provocada... e assim consecutivamente. Porque eu falo isso? Para mostrar aos professores que a grande tarefa do professor é provocar a inteligência. Existe um arsenal de metáforas que vem naturalmente.São aquelas que a gente usa de repente.

matura_idade_ed02_rubem_alves_sorrindoQual o seu segredo para desnudar nossa alma e descreve-la de uma forma tão simples que nos encanta?

O segredo é facílimo. Eu estava em Juiz de Fora, era um congresso, e andava por um corredor e na minha direção veio um moço chegou pra mim e disse: “Quem foi que lhe deu o direito de entrar na minha alma?” Eu disse pra ele: “Eu nunca entrei na sua alma, eu entrei na minha e a sua estava lá dentro.” É porque todos nós somos iguais. Fernando Pessoa diz que “arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima para elas.” E para você ver as almas dos outros é só você ver a sua própria. Eu não penso na alma dos outros eu penso na minha e ai as pessoas dizem: “Mas é isso mesmo!”. E então cria a comunhão e nós dois somos parecidos, temos almas iguais. Então é assim.

Quando é que surgiu a psicanálise na sua vida?

Primeira coisa você tem que colocar no plural, porque são muitas psicanálises. Psicanálise parece muito com seitas religiosas, são vários grupos. O Fernando Pessoa tem um poema em que ele se dirige a um poeta que começa assim: “Cessa o teu canto! / Cessa, que, enquanto / O ouvi, ouvia / Uma outra voz / Como que vindo / Nos interstícios / Do brando encanto / Com que o teu canto / Vinha até nós./ Ouvi-te e ouvi-a / No mesmo tempo / E diferentes / Juntas cantar. / E a melodia / Que não havia, / Se agora a lembro, / Faz-me chorar. / Foi tua voz / Encantamento / Que, sem querer, / Nesse momento, / Vago acordou / Um ser qualquer / Alheio a nós / Que nos falou?” Esse é o resumo da Psicanálise. Há uma outra voz, nós estamos falando mas há uma outra coisa misturada. E se você prestar atenção nessa “melodia que não havia”. Porque se eu prestar atenção eu vou chorar porque “a melodia / Que não havia, / Se agora a lembro, /Faz-me chorar.” Psicanálise pra mim é um jeito de ouvir. Uma das coisas mais difíceis é ouvir.

E você conhece alguma fórmula pra aprender a ouvir?

Uma vez eu escrevi em tom de brincadeira, mas quando eu estou brincando eu estou sério, de novo é o Nietzsche, “Ridendo dicere severum”, “rindo dizer coisas sérias”, que eu já havia visto muitos cursos de oratória, mas nunca havia visto um anúncio de um curso de escutatória. Porque todo mundo acha que escuta muito bem e ninguém quer aprender a escutar.

Com relação ao tempo, de uma forma geral, o que você diz?

Ali atrás da porta de entrada da minha casa há duas tábuas com duas frases gravadas. A primeira frase é “Tempus fugit”, o tempo foge. E foge muito mais depressa que a gente imagina. A segunda frase: “Carpe diem”, que quer dizer “colha o dia”. E trate de colher logo, não deixe pra amanhã não, porque senão apodrece. O tempo é uma coisa que você não pode economizar, tem que aproveitar.

 

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